O avanço do El Niño e suas consequências ao Brasil já começa a mudar as projeções de empresas de diversos setores para os próximos meses. Enquanto companhias do agronegócio, logística e transporte se preparam para possíveis perdas provocadas por eventos climáticos extremos, empresas do varejo e de bebidas enxergam o aumento das temperaturas como uma oportunidade para impulsionar as vendas.
Levantamento da Folha de S. Paulo com 76 companhias que integram o Ibovespa mostra que os efeitos do El Niño podem atingir diferentes setores da economia. Entre os principais riscos estão aumento da inadimplência no crédito rural, quebra de safras, e custos adicionais de logística.
Por outro lado, o estudo mostra que empresas varejistas avaliam que temperaturas mais elevadas podem estimular o consumo de determinados produtos e favorecer os resultados.
Calor pode impulsionar vendas de ar-condicionado e bebidas
O varejo de eletrodomésticos está entre os setores que podem se beneficiar do El Niño. O Magazine Luiza projeta aumento da demanda por equipamentos de climatização, especialmente ar-condicionado, ventiladores e produtos de refrigeração.
“O calor faz muita diferença para nós. A linha de ar-condicionado e ventilação vende muito e mexe muito o ponteiro, assim como a categoria de refrigeração, que é a que vende mais na companhia. No calor, vendemos muito”, afirma Fabrício Garcia, vice-presidente de operações da empresa.
A indústria de climatização também se prepara para um possível aumento da demanda. Segundo a Abrava, associação que representa o setor, o faturamento do segmento deve chegar a R$ 55,62 bilhões em 2026, crescimento de 10% em relação ao ano anterior.
O setor de bebidas também pode ser beneficiado pelo fenômeno. A Ambev afirmou que utiliza como referência os efeitos do El Niño registrados em 2024 para definir estratégias para os próximos trimestres.
Segundo Carlos Lisboa, CEO da companhia, temperaturas mais altas podem estimular o consumo.
“O ano de 2024 ilustrou que temperaturas mais altas podem, sim, influenciar a demanda”, afirmou. No balanço daquele ano, a Ambev reportou que a receita líquida de cerveja no Brasil somou R$ 40,22 bilhões, alta de 3,2% em relação a 2023″, destaca o executivo.
Agronegócio está entre os setores mais expostos ao El Niño
Se o calor pode representar uma oportunidade para alguns segmentos, o cenário é diferente para o agronegócio brasileiro. A possibilidade de períodos de seca e quebra de safra elenca produtores e empresas ligadas à cadeia agrícola entre os mais vulneráveis ao fenômeno.
Na avaliação de Aline Cardoso, líder do departamento de pesquisa e estratégia de ações do Santander, o El Niño historicamente provoca períodos de seca no Centro-Oeste, com impactos sobre a produtividade das lavouras, criando um efeito-cascata para outros segmentos da economia.
“O El Niño, historicamente, traz seca para o Centro-Oeste, o que causa quebra de safra. Por consequência, o setor financeiro acaba penalizado porque dá crédito para o agro, então podemos ver um aumento de inadimplência por conta disso. Setor de transportes, especificamente ferrovias e hidrovias, tende também a sofrer, porque, se há quebra de safra, há menos volume para transportar”, explica.
Uma das empresas citadas no levantamento da Folha entre as mais expostas é a SLC Agrícola, que figura entre as maiores produtoras de soja, milho e algodão do país.
Segundo o estudo, a produtividade da soja da companhia costuma apresentar queda média de 7% em anos de El Niño. No algodão de segunda safra, a redução chega ao patamar de 10%.
Para reduzir os possíveis impactos do fenômeno em 2026 e 2027, a empresa adotou mudanças no manejo das lavouras, como o uso de cobertura de solo para preservar a umidade e a redução do revolvimento da terra, estratégia que ajuda a diminuir a evaporação da água.
Os efeitos adversos podem se espalhar para outros setores. Uma safra menor reduz a demanda por transporte de grãos. Por isso, o El Niño também está no radar de empresas do setor.
A Rumo, uma das principais operadoras logísticas do país, pode ser prejudicada caso uma eventual quebra de safra reduza o volume de grãos transportados.
“O El Niño tradicionalmente atinge todas as pontas, do sistema Norte ao sistema Sul, e de maneiras diferentes”, comenta Guilherme Machado, diretor financeiro da empresa.
*com informações da Folha de S. Paulo















